A expiração da patente da semaglutida em março trouxe novas esperanças para o surgimento de alternativas mais acessíveis às canetas usadas no tratamento da obesidade, como Ozempic e Wegovy. Entretanto, os resultados do tratamento podem variar consideravelmente: diversas pesquisas e profissionais da área indicam que uma parte significativa dos pacientes não consegue alcançar a perda de peso desejada nos primeiros meses de uso. Uma reportagem realizada por Marília Marasciulo, publicada em 29/4/2026 pela Agência Einstein, compila dados sobre essa diversidade de respostas e os fatores que a influenciam.
Variabilidade na eficácia do tratamento
Os ensaios clínicos evidenciam diferenças nas taxas de não resposta ao tratamento. No estudo STEP 1, veiculado em 2021 no The New England Journal of Medicine, aproximadamente 14% dos pacientes que receberam semaglutida não conseguiram perder ao menos 5% do peso corporal. Já no estudo SURMOUNT-1, que analisou a tirzepatida, as taxas foram de 9,1% na dosagem de 15 mg; enquanto nas doses de 10 mg e 5 mg, os índices foram de 11,1% e 14,9%, respectivamente.
O endocrinologista Paulo Rosenbaum, do Hospital Israelita Albert Einstein, afirma que essa variabilidade é natural: cada indivíduo tem uma resposta única ao medicamento e estima-se que entre 5% e 10% dos pacientes possam apresentar baixa resposta. A titulação gradual da dose é uma abordagem comum para mitigar efeitos colaterais e aumentar a aceitação do tratamento; no entanto, pode ser necessário retornar a doses inferiores ou ajustar o aumento quando surgir intolerância.
Aspectos que afetam a resposta ao tratamento
Diversos fatores podem justificar a falta de resposta ao tratamento, abrangendo causas biológicas, clínicas e comportamentais. Indivíduos com diabetes geralmente apresentam menor perda de peso devido à resistência à insulina. Um estudo realizado em 2024 e publicado na Diabetologia analisou 4.467 adultos com diabetes tipo 2 sob uso de liraglutida, semaglutida ou dulaglutida; apenas 14% desses pacientes conseguiram simultaneamente melhorar o controle glicêmico e reduzir pelo menos 5% do peso corporal. Fatores como peso inicial elevado, idade avançada, tempo de diagnóstico do diabetes e função renal foram identificados como relevantes.
A dosagem do medicamento também exerce influência: um ensaio publicado em 2025 no The Lancet revelou que a semaglutida na dose de 7,2 mg propiciou uma maior redução do peso corporal comparado à dosagem padrão de 2,4 mg — com perdas médias após 72 semanas sendo de 18,7% contra 15,6%. Estudos sobre farmacocinética indicam que a eficácia clínica está mais relacionada aos níveis do fármaco no organismo do que ao método de administração utilizado; além disso, um maior índice de massa corporal está associado a uma menor exposição à medicação.
Outros medicamentos podem atenuar os efeitos das canetas antiobesidade. Diretrizes sugerem reavaliar medicamentos que possam causar ganho de peso — como insulina, certos antidepressivos, antipsicóticos e anticonvulsivantes — e substituí-los por opções neutras sempre que viável. Pesquisas genéticas também têm sido realizadas; um estudo publicado na Nature envolvendo 27.885 usuários identificou variantes no receptor GLP-1 ligadas a uma melhor eficácia e correlações entre variantes específicas e o risco de efeitos colaterais como náuseas e vômitos relacionados especialmente à tirzepatida.
Estratégias frente à ineficácia do tratamento
Quando o resultado esperado não se concretiza, a primeira ação deve ser revisar o plano terapêutico: verificar se a titulação foi feita corretamente, se o paciente atingiu a dose indicada e se houve adesão constante ao tratamento. É crucial também avaliar aspectos comportamentais e clínicos — hábitos alimentares, consumo alcoólico, qualidade do sono, níveis de estresse, comorbidades endócrinas e uso concomitante de outros medicamentos. Rosenbaum destaca que fatores hedônicos associados à alimentação podem interferir na eficácia em alguns indivíduos.
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Após essa revisão inicial nos parâmetros terapêuticos aplicam-se diretrizes sobre a resposta mínima: quando há eficácia no tratamento ele deve ser mantido sob monitoramento constante; caso contrário, as opções incluem reforçar alterações no estilo de vida ou realizar ajustes na posologia ou até mesmo substituir o medicamento.
Acessibilidade econômica e viabilidade financeira
O elevado custo das medicações semaglutida e tirzepatida torna fundamental analisar as variabilidades nas respostas para decisões relacionadas ao financiamento público. Agências reguladoras têm implementado critérios rigorosos: no Reino Unido, o NICE liberou o uso da semaglutida para situações específicas durante um período máximo de dois anos com acompanhamento multidisciplinar necessário. No Canadá, o reembolso público depende da presença de critérios clínicos específicos além da adoção de dieta adequada e prática regular de atividades físicas.
No Brasil, em agosto de 2025 a Conitec negou um pedido para incorporar esses medicamentos ao SUS devido preocupações orçamentárias e incertezas sobre sua relação custo-benefício. Em resposta, em 2026 a farmacêutica Novo Nordisk lançou um programa piloto para oferecer Wegovy em unidades do SUS nos estados do Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro com o objetivo de coletar dados sobre os impactos clínicos sociais e econômicos entre populações vulneráveis visando reduzir complicações onerosas.
Rosenbaum enfatiza que ampliar o acesso público não deve mudar a proporção dos pacientes que não respondem adequadamente aos tratamentos; portanto é essencial alinhar expectativas realistas e evitar interrupções sem supervisão médica.
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